"Bomba-relógio ecológica: luvas, máscaras cirúrgicas e garrafinhas de álcool deitadas ao mar"

(In Expresso, 15 Março 2021)

"Os materiais de proteção que têm ajudado a impedir a disseminação da covid-19 podem vir a revelar-se "um tsunami de plástico a ganhar força nos oceanos"."

"A juntar às vidas interrompidas e aos danos económicos, sociais e psicológicos, a pandemia vai deixar um legado de poluição: milhões de máscaras, luvas e garrafinhas de desinfetante que vão afetar ambientes naturais de forma permanente, contrariando.os benefícios temporários da redução de outros fatores poluentes, nomeadamente a emissão de gases com efeito de estufa, que se verificou em 2020.

O efeito é especialmente grave nos oceanos. Segundo uma estimativa citada o ano passado na scientificamerican.com, 129 mil milhões de máscaras e 65 mil milhões de luvas estavam a ser usadas todos os meses. O conjunto de todas as máscaras já usadas e a usar daria para cobrir a Suíça inteira. Uma quantidade substancial delas acabam por ir parar aos mares.

A vasta maioria das máscaras e das luvas são em plástico, um material que pode levar centenas de anos a decompor-se. As tartarugas marinhas, por exemplo, tendem a confundir as máscaras com alforrecas, um seu alimento habitual. E mesmo antes de um objeto desaparecer completamente, pode começar a libertar microplásticos e nanoplásticos, partículas minúsculas suscetíveis de ser absorvidas pelos peixes, via pela qual poderão vir a entrar na cadeia alimentar humana.

FONTE DE POLUIÇÃO NANOPLÁSTICA

As implicações ambientais dos plásticos no oceano, e os seus potenciais efeitos sobre a saúde humana, têm sido objeto de muitos estudos e avisos desde há anos. A produção de equipamentos pessoais de proteção contra a epidemia agravou a situação, e, com três milhões de novas máscaras a entrar em uso a cada minuto, já não é possível eludi-la.

"É urgente reconhecer esta importante ameaça ambiental e impedir que ela se torne o próximo problema do plástico", alertaram recentemente dois cientistas na revista Frontiers of Environmental Science and Engineering. Segundo informações citadas num artigo da scitechdaily.com sobre esse alerta, só a produção de máscaras descartáveis já equivale à de garrafas de plástico (calculada em 43 mil milhões por mês) com a agravante de que, para as máscaras, ao contrário do que acontece com as máscaras, ainda não existem sistemas de reciclagem alargados.
Muitas das máscaras são fabricadas a partir de microfibras.

"Quando se decompõe no ambiente, a máscara pode libertar mais microplásticos, mais fácil e rapidamente, do que sacos de plástico. Esses impactos podem agravar-se com uma máscara de nova geração, as nanomáscaras, que usam diretamente fibras de nanoplástico (com um diâmetro inferior a um micrómetro) a acrescentar uma nova fonte de poluição nanoplástica", escrevem os investigadores.

ALGUMAS RECOMENDAÇÕES

No ano passado, meses depois de a pandemia começar, a Mar Propre, uma ONG francesa, começou a encontrar dezenas de máscaras, luvas e garrafas de plástico ao longo da Côte d'Azur. Na altura, as quantidades não eram muito grandes, mas, conforme um representante da organização explicou ao diário britânico "The Guardian", eram "a promessa de poluição que aí vem se nada for feito".

Outro membro da organização mostrou ao jornal um vídeo de máscaras enroladas em algas e explicou que havia o risco de em pouco tempo passar a haver mais máscaras do que alforrecas no Mediterrâneo. Para ele, a resposta estava no recurso a máscaras reutilizáveis e na substituição das luvas de plástico por lavagem frequente das mãos. Um ponto reforçado por outras organizações que defendiam que o uso das chamadas máscaras cirúrgicas devia ser limitado a hospitais e outras instalações de saúde.

Recentemente, The Conversation publicou um artigo onde cientistas da Universidade de Stanford e da Universidade da Califórnia falaram da base de dados que criaram analisando todos os estudos realizados entre 1972 e 2019 sobre a ingestão de plástico por organismos marinhos. Os padrões alimentares das várias espécies foram examinados em detalhe, e uma das conclusões é que a percentagem de peixes onde foi encontrado plástico subiu de 15 por cento em 2010-2013 para 33 por cento em 2017-2019.

“UM TSUNAMI DE PLÁSTICO”

Embora melhorias da deteção de microplásticos ajudem a explicar essa subida, o consumo de plástico também parece estar a aumentar. "Isto não é só uma questão de conservação da vida selvagem", escrevem os autores. Reconhecendo que "por enquanto não se sabe muito sobre os efeitos da ingestão de plástico nos humanos (ou nos peixes), "existe evidência de que os microplásticos e mesmo partículas mais pequenas chamadas nanoplásticos podem passar do estômago de um peixe para o tecido muscular, que é a parte que os humanos tipicamente comem", dizem.

Acrescentam que apenas dois por cento das 20 mil espécies marinhas foram testadas e que boa parte dos oceanos permanece por examinar. E sublinham a importância de aprofundar os estudos sobre os efeitos potenciais do plástico no corpo humano. A invisibilidade do problema não é uma razão para não o levar a sério, sobretudo quando ele pode ir parar às nossas mesas, concluem.

Antes da covid-19, o equivalente a um camião do lixo cheio de plástico era despejado nos oceanos a cada minuto. A scientificamerican.com falava de um peso total "comparável a noventa porta-aviões", e referia projeções segundo as quais a massa de plástico poderia vir a superar a dos peixes por volta de 2050.
Com a pandemia e a consequente crise económica, a queda do preço do petróleo tornou economicamente ainda mais apetecível a utilização de plásticos. Para a scientificamerican.com, o que está em causa é nada menos do que "um tsunami de plástico a ganhar força nos oceanos"."

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